O vazio sobre o asfalto: o dia em que esqueci uma mala no parque do Porto

Poucas sensações provocam um frio tão instantâneo e visceral como a repentina leveza das mãos quando deviam suster peso. Tinha conduzido desde a Galiza a primeira hora da manhã para apanhar um voo direto para Milão a partir do aeroporto Francisco Sá Carneiro. Como costumo fazer, entrei no recinto de estacionamento porto aeroporto de longa duração com tempo de sobra, alinhei o carro de marcha-atrás entre as linhas pintadas e preparei-me para reorganizar a bagagem antes de seguir pelo passadiço pedonal em direção ao terminal das partidas. Abri a bagageira, pousei no chão a mala de cabine com a minha roupa de trabalho e a documentação, coloquei a mochila ao ombro, fechei a porta da mala com uma pancada seca e comecei a andar em passo acelerado enquanto verificava o cartão de embarque no telemóvel.

O drama gerou-se nesse segundo de distração quotidiana. Convencido de que levava tudo comigo, caminhei os quinhentos metros que separam os lugares exteriores do átrio principal, cruzei as portas automáticas e dirigi-me com passo firme para o pórtico de segurança. Foi mesmo na fila de acesso, ao procurar com a mão direita a pega telescópica para colocá-la no tapete de raio-X, que senti o vazio. A minha mão tacteou o ar. Olhei para os meus pés, olhei para trás com a esperança absurda de a ter puxado sem me aperceber e o choque da realidade bateu-me no peito: o trolley escuro tinha ficado em pé, solitário e abandonado, mesmo atrás do para-choques do meu carro a meio do parque de estacionamento.

O pânico inicial deu lugar a uma corrida frenética em sentido inverso. Olhei para o relógio: a porta de embarque fechava em quarenta minutos. Percorri a correr o caminho de regresso pelos passeios exteriores da Maia sob uma chuva miudinha que começava a ensopar a camisa, enquanto pela cabeça me desfilavam os piores cenários possíveis. Temia que algum transeunte a tivesse levado naquele quarto de hora de descuido ou, pior ainda, que o protocolo antiterrorista do aeroporto tivesse detetado um volume suspeito abandonado e isolado o perímetro.

Ao virar a última fila de veículos, a arquejar e com o coração na garganta, deparei-me com uma imagem que me devolveu o ar de repente. A minha mala continuava ali, exatamente no mesmo metro quadrado de asfalto onde a tinha pousado, mas não estava sozinha: um funcionário de manutenção do parque, que realizava a ronda matinal no seu veículo elétrico, tinha encostado junto a ela e verificava a matrícula do meu carro através de um walkie-talkie para tentar localizar o proprietário pelo registo de entrada.

Mal consegui articular umas palavras apressadas numa mistura de galego e português para comprovar que era minha. A simpatia e a serenidade do trabalhador português, longe de me censurarem pela distração, dissiparam de imediato a vergonha do momento. Após cruzar rapidamente os meus dados, desejou-me boa viagem com um sorriso compreensivo e indicou-me o atalho mais rápido até ao terminal.

Passei o controlo de segurança a suar mas a tempo, ocupei o meu lugar no avião e apertei o cinto com uma enorme gratidão. Esquecer uma mala no parque do Porto custou-me um susto considerável, mas também me deixou uma lição inesquecível sobre a importância da atenção e uma certeza evidente: o profissionalismo e a vigilância permanente das equipas de terra constituem, nas ocasiões de maior descuido, o melhor apoio com que um viajante pode contar.